Assédio é crime e não vitimismo!

Hoje eu acordei com a infeliz notícia, dada de pela própria vítima pela Folha de São Paulo, de que o ator José Mayer assediou sexual uma figurinista que trabalhava na mesma novela na qual ele estava atuando.

Havia programado de escrever outra coisa, mas quando vi a notícia e sua repercussão, decidi escrever sobre esta mesma notícia, porque não é a primeira vez que este tipo de situação acontece e não será a última vez que lerei e escutarei comentários infelizes sobre o assunto.

Até quando isso vai continuar acontecendo? Até quando desconhecidos que não têm nada a ver com o caso falam como se estivem lá e chamam a mulher de oportunista, a culpam como se fossem os donos da verdade, que ela pediu para isso e provavelmente deve ter adorado, ou que estava vestindo uma roupa provocante no qual, obviamente qualquer "homem de verdade" faria a mesma coisa, ou então, citando uma das pessoas na qual conversei quando vi a reportagem: "hoje em dia não podemos mais cantar mulher alguma, pois já se caracteriza assédio".



Cantada?


Certo, o ator - José Mayer - encosta a mão da parte intima dela, diz que imagina "seus peitinhos" e diversos outros comentários que a fez sentir-se constrangida e assediada e isso não se passou de uma cantada, que a figurinista só fez isso para chamar a atenção, que é uma oportunista e que com certeza o ator é a vítima nesta história. Claro, com certeza.



Vamos deixar claro uma coisa...



Cantar uma mulher, ou homem, significa ter conversa sedutora visando a uma conquista.

Assediar significa perseguir com propostas; sugerir com insistência; ser importuno ao tentar obter algo; molestar.

Há uma grande diferença entre essas duas palavras e segue agora o depoimento da figurinista e veremos claramente esta diferença, juntamente com nojo e constrangimento:

"Eu, Susllem Meneguzzi Tonani, fui assediada por José Mayer Drummond. Tenho 28 anos, sou uma mulher branca, bonita, alta. Há cinco anos vim morar no Rio de Janeiro, em busca de meu sonho: ser figurinista.
Qual mulher nunca levou uma cantada? Qual mulher nunca foi oprimida a rotular a violência do assédio como uma "brincadeira"? A primeira "brincadeira" de José Mayer comigo foi há oito meses. Ele era protagonista da primeira novela em que trabalhava como figurinista assistente. E essa história de violência se iniciou com o simples: "como você é bonita". Trabalhando de segunda à sábado, lidar com José Mayer era rotineiro. E com ele vinham seus "elogios". Do "como você se veste bem", logo eu estava ouvindo: como a sua cintura é fina", "fico olhando para a sua bundinha e imaginando seu peitinho", "você nunca vai dar para mim?"
Quantas vezes tivemos e teremos que nos sentir despidas pelo olhar de um homem, e ainda assim - ou por isso mesmo - sentir medo de gritar e parecer loucas? Quantas vezes teremos que ouvir, inclusive de outras mulheres: "ai que exagero! Foi só uma piada!" Quantas vezes vamos deixar passar, constrangidas e enojadas, essas ações machistas, elitistas, sexistas e maldosas?
Foram meses envergonhada, sem graça, de sorrisos encabulados. Disse a ele, com palavras exatas e claras, que não queria, que ele não podia me tocar, que se ele me encostasse a mão eu iria ao RH. Foram meses saindo de perto. Uma vez lhe disse: "você é mais velho do que meu pai. Você tem uma filha da minha idade. Você gostaria que alguém tratasse assim a sua filha?"
A opressão é aquela que nos engana e naturaliza o absurdo. Transforma tudo em aceitável, em tolerável, em normal. A vaidade é aquela que faz o outro crescer na falta do limite, no estrelato, no poder e na impunidade. Quantas vezes temos que pedir para não sermos sexualizadas em nosso local de trabalho? Até quando teremos que ir às ruas, ao departamento de RH ou à ouvidoria pedir respeito?
Em fevereiro de 2017, dentro do camarim da empresa, na presença de outras mulheres, esse ator, branco, rico, de 67 anos, que fez fama como garanhão, colocou a mão esquerda na minha genitália. Sim. Ele colocou a mão na minha buceta e ainda disse que esse era seu desejo antigo. Elas? Elas, que poderiam estar em meu lugar, não ficaram constrangidas. Chegaram até a rir de sua "piada". Eu? Eu me vi só, desprotegida, encurralada, ridicularizada, inferiorizada, invizivel. Senti desespero, nojo, arrependimento de estar ali. Não havia cumplicidade, sororidade."

Viram só? Ela foi bem clara sobre o que queria dizer, de que estava constrangida, de que há quase um ano ela estava sendo molestada, assediada e ainda assim existem pessoas que vejam apenas como brincadeira, algo normal de ser tratado.

Mulheres têm medo de denunciar para não piorar a situação, ou, como em diversos casos já ocorridos, o assediador ser tratado como vítima e ela se sentir mais só como nunca.

Temos medo de vestir-nos do jeito que quisermos, de andar na rua sozinha e de cumprimentar estranhos que vemos sempre na rua com medo de eles acharem que estamos "dando mole".

Temos medo de quando estamos sozinhas no táxi e o taxista pega o caminho mais longo, mas não porque achamos que ele quer pegar mais do nosso dinheiro e sim porque achamos que ele pode nos violentar.

Temos medo de passar por perto de pedreiros, por exemplo, porque sabemos que uma vez ou outra iremos ser assediadas - repito, assediadas e não cantadas - e temos também da reação deles, no caso de ignorarmos.

Temos medo, quando estamos andando na rua, durante à noite, de passos apressados atrás de nós, sempre imaginando o pior.

Temos medo de recusar cantadas na balada e sermos agredidas verbalmente e fisicamente.

Susllem Tonani, a figurinista, teve que aguentar durante meses, assédios de uma pessoa bem mais velha do que ela, no qual ignorava qualquer suplica que ela fazia, pois ambos sabiam que a vítima da história seria ele.

Ela teve que aturar situações que mulher alguma gostaria de passar em seu lugar durante meses e só se sentiu segura quando a novela acabou de ser gravada e ainda assim, com esta denuncia, apenas ela, a vítima, sofrerá as consequências de ter denunciado um crime. Talvez perderá seu emprego e dificilmente encontrará outro, talvez a reconhecerão na rua e a encherão de xingamentos por ter denunciado um cara "tão bacana e famoso", talvez ela até será assediada novamente...

E nada acontecerá com o José Mayer.

Ele assediou a figurinista!
Assim também como o cantor Biel assediou a repórter!
Assim também como diversos outros no qual as vítimas, com medo, nem denunciaram!



As mulheres precisam se unir, imaginar-se na pele das vítimas e não rir como se fosse uma brincadeira como neste caso, deveremos dar um basta nisso! E os homens devem parar de achar isso legal, de pensar que é o garanhão da história e de imaginar que a mulher adora ser tocada sem permissão, de sentir-se como um objeto, como um lixo. Devem imaginar como seria se a assediada fosse alguém com quem eles se importam, sua irmã, sua mãe, sua filha... Aposto que eles não gostariam...

Não devemos deixar assim, assédio é crime e eles devem pagar pelo crime que fizeram e não ser parabenizados por tal. Não deixem quieto, não sorriem constrangidas e assim que for assediada - assédio moral ou sexual - vão até a delegacia da mulher, vão para a polícia e se for em seu local de trabalho, não pensem duas vezes antes de ir para o RH denunciá-lo.

Sim, têm diversos casos que o assédio ficou por isso mesmo, diversos casos que a vítima foi estuprada por dizer "não" para o criminoso ou por denunciá-lo e sim, há homens e mulheres que ainda acreditam que você pediu por isso.

Mas assim como há consequências ruins, há boas também:

A Globo pode não ter se posicionado prontamente, mas não desanime, como escrevi em meu primeiro post no blog, você nunca estará sozinha, blogs como Metrópoles e Leodias (que aliás foi o primeiro a publicar este assunto) estão ao lado da verdadeira vítima e não têm medo das consequências.

Homens e mulheres comentando a favor da figurinista existem também e a história não passará batido, não desta vez.

Você que foi assediada, você não é louca, você não é oportunista, você não está sozinha e me recuso a permitir que algo do gênero aconteça novamente. Diga não ao assedio, ao estupro, à opressão... E diga não de verdade!

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